22 de abril de 2014

Da fixação do homem a terra à invenção dos carros de boi - (trecho do livro "Festas de Carros de Boi"

Da fixação do homem a terra à invenção dos carros de boi

"Fixação do homem e desenvolvimento da agricultura de subsistência

Há milhares de anos, nas sociedades primitivas, os seres humanos eram nômades. Significa dizer que não moravam sempre no mesmo lugar, viviam em bandos e saíam em busca de lugares que pudessem atender as suas necessidades de sobrevivência; de preferência que fossem próximos de lagos ou rios. Habitavam o local de acordo com a disponibilidade de alimentos que a natureza lhes oferecia; dependiam da coleta de alimentos silvestres, da pesca e da caça. Naquela época ainda não havia cultivos, criações domésticas, armazenamento e também não se trocavam mercadorias entre bandos diferentes, pois eram rivais.
De tal modo, em certos períodos tinham fartura de alimentos e em outros passavam fome. Daí partiam em busca de um novo local para se instalarem. Para alguns deles, a busca do alimento, em princípio era fácil, mas com o passar do tempo ficava difícil, porque eles não sabiam replantar o que comiam, e quando os alimentos mais próximos acabavam, eles tinham que percorrer longas distâncias. Então, eram obrigados a se mudarem novamente.
Pela observação, descobriram que as sementes das plantas, quando devidamente espalhadas ao solo, germinavam, e com o passar do tempo elas cresciam e davam frutos, e que alguns animais podiam ser domesticados.
Esse momento é muito importante para os seres humanos, porque é o início da agropecuária e da fixação do homem a um lugar preestabelecido por eles.
Conforme expõe Carneiro, com a fixação do homem em locais predefinidos, ele desenvolveu a agricultura de subsistência. O trigo e a cevada foram as primeiras plantas a serem cultivadas. ambas surgiram na Ásia Menor, entre 6000 e 7000 a.C. 
Cabe observar que uma das grandes conquistas técnicas, ligadas ao plantio, foi a invenção e o uso do arado, que inicialmente era puxado por humanos, e após o século V a.C., foram usados animais atrelados.
O arroz, cuja origem é mais recente em torno de 2000 a.C., originário na Península da Indochina, era uma gramínea de solo seco, e foi a ação humana que a adaptou artificialmente, após 2000 anos de cultivo, como uma planta semiaquática.
O terceiro cereal mais importante do mundo é o milho, plantado há cerca de 3000 a 3500 a.C., nos planaltos mexicanos, difundo por toda Europa por volta do século XVI d.C. graças aos espanhóis que o espalham pelo mundo. Ele se tornou parte essencial da dieta europeia, chegando à Itália por volta de 1600, sendo consumido como papas e mingaus.
A respeito do uso do sal, os registros mostram que ele já era usado na Babilônia, no Egito, na China e em civilizações pré-colombianas, em torno de 3000 a.C.
A mandioca foi a planta mais importante das populações litorâneas da América do Sul. Mas sei que raramente alguém pensa nela quando está saboreando os deliciosos pães de queijo mineiros que fazem sucesso além-Minas, além-Brasil. Também acho improvável que alguém relacione as primeiras prensas para a farinha de mandioca, sendo apertadas pela força dos bois de canga, assim como seria exagerado pedir que se tragam à baila memórias das grandes farinhadas, cujo produto, desde a própria farinha até o polvilho, era puxado pelos carros de boi. É que geralmente acontecia de as casas de farinha serem logisticamente erguidas próximas as fontes de água corrente, para facilitar o trabalho dos farinheiros. Essa opção geográfica facilitava o trabalho agricultável, mas era penoso para os carreiros e seus carros de boi, que cantavam para subir longas, e muitas vezes lisas serras, pois a época de farinhada não raro coincidia com temporada de chuvinhas, aquelas que fazem as encostas se parecerem com peixe ensaboado.
Os carros de boi e suas parelhas merecem ou não festividades dedicadas a eles? Eu penso que sim. Por isso mesmo também me dediquei a ir até cada uma delas durante três anos e registrá-las, para que o máximo possível de pessoas soubessem que as raízes do Brasil também dependeram de rodas e de muitos pares de patas."






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